terça-feira, 18 de agosto de 2009

O Sangue, o Sexo de gente gulosa e o Sol na moleirinha

Chega o verão, o sol assenta na moleirinha e desata tudo a dizer disparates à velocidade luz, incluindo a minha pessoa. Já não bastava termos que mandar os comunistas para a clandestinidade, vamos agora ter que embrulhar também os homossexuais, especialmente os doadores de sangue. Talvez seja melhor alugar, para o efeito, um grande navio cruzeiro, sempre se poupa nas viagens. Imagino já as raves no convés que se iriam fazer, com o DJ a misturar a Internacional com o I will survive.




O senhor presidente do IPS, Gabriel Olim, veio dizer que os ditos saboreadores de práticas sexuais alternativas deviam ser (são?) afastados da prática de doar sangue, já que isso é gente que gosta de doar outras partes menos próprias a toda a hora e a qualquer pedaço de população superior a 10.000 membros. Caiu o Carmo e a Trindade, mas melhor seria ter caído também o Príncipe Real pois sempre faziam um menage à trois, que também é muito moderninho.
Devo dizer que fiquei de boca aberta, antes isso que outra coisa, não pela frase do senhor presidente, pois só quem anda embriagado neste país é que ainda não viu que tipo de mentalidades temos por cá, quer seja no vizinho da mercearia quer seja no presidente de um Instituto do Vencimento Bem Alto e do Tacho Bem Bom, mas pela ligeireza com que se trata o assunto de doar sangue. Vamos ver:



  1. Qual estudo, qual recomendação, quais estatísticas, eu é que sou o Presidente da Junta e eu é que sei que a rapaziada das paradas, que se gosta de mostrar cheio de lantejoulas e acaba a noite numa perfeita orgia tecno e não só, tem uma percentagem maior de doenças contagiosas pelo liquido da vida. Mas não são os Hetro que, neste momento, têm uma percentagem superior de SIDA à dos homo? Ah, isso é porque que eles mentem muito quando preenchem os inquéritos, não assumem o seu desvio pecaminoso da libido, todos sabemos que homem que é homem não apanha essa doença de maricas. Comportamentos de risco? São só dessa cambada alegre, pois eu, Hetro da Silva, sempre que saltei a cerca do meu sagrado matrimónio foi com donzelas puras e castas que eram fiéis aos seus maridos e namorados, aliás uns panhonhas que nunca petiscavam fora de casa, e em que elas apenas caíram na tentação, não por serem adúlteras compulsivas, mas porque não conseguiram resistir ao meu charme.

  2. Análises ao sangue do doador? Despistar se os comportamentos gerais são de risco? Ná, basta ele, o putativo doador, pôr uma cruzinha no tipo de prática sexual e já estamos convencidos. Se o Hetro é desde logo filho de boas famílias, mais um pouco o sangue até é azul, o homo é promíscuo e a coloração sanguínea deve ser bem cor-de-rosa, já para não dizer violeta ou outro arco-íris hemoglobínico. Assim, aquela cruz sobre o sexo, que se põe nos inquéritos, com M ou F, poderá começar a ter um outro significado, M de Muito, só os gays é que praticam sexo à fartazana, e F de Fraco, pois qualquer Hetro sabe que o casamento, os filhos, as contas e os malditos políticos à hora do telejornal tiram o apetite para qualquer brincandeirazinha mais apetitosa.


  3. Mas se todos sabemos que há 2 matérias em que todos mentem continuamente, sexo e política, como podemos acreditar que a confissão num inquérito de que nunca me tentei por alguém com tantos pêlos como eu, esquecendo a vizinha Maria Alzira que parece revestida a velcro, é verdadeira? Não será melhor enveredar por um diagnóstico mais científico? Qual? Sei lá, por exemplo ver se o recto já teve alguma intrusão superior a 1 cm de diâmetro por 3 de comprimento, temos que criar margem de manobra para a medicação. Claro que no caso de ter havido sondas ou apalpações de próstata, o mesmo inquérito seria acompanhado de atestado médico. Sim, porque só se considera verdadeiramente homo, aquele que permite que no seu canal da mancha sejam introduzidos TGV corporais de terceiros. No caso de haver contacto com gente do mesmo sexo mas em que se assumiu a posição do homem macho barbudo, a ser ele a lançar o foguetão na cratera lunar do parceiro, não se considera homo, foi meramente uma distracção, se calhar estava de luz apagada e até pensava que o José Maria era uma Maria José, é o que dá a maldita dislexia.


  4. A gente da minha terra ficou surpreendida e indignada com as declarações, vieram as Jotas e o responsáveis mais disto e daquilo a gritar que não podia ser. Não podia? Mas já é, em que raio de país vivem estes espécimes? Será que desconhecem as regras dos organismos que eles mesmo tutelam, legislam ou acompanham? Porque será que na altura de eleições aparecem sempre estas virgens da Kapadócia, eternamente puras e de olhos fechados, a virem a público muito chocadas com a pouca vergonha que anda por aí? Se em lugar de andarem o ano inteiro a dormir na sombra dos joguinhos políticos fossem olhando um pouco para o outro lado do seu caminho egocêntrico, não eram de repente acordadas com factos que ficam a saber depois pelos jornais.


Estamos a entrar num campo perigoso, o de deduzir comportamentos generalizados sobre os outros com base numa cruzinha. Lembro que há cerca de 70 anos também com base numa cruzinha feita com 2 S alguém colocou outras cruzes bem pesadas na lapela de supostos transviados a abater. Em lugar de se detectar comportamentos de risco, claro que bem existentes nos homossexuais mas também nos hetro, passamos a etiquetar um estado sexual. Não é nada, mas depois disto, tendo em conta a tendência economicista da sociedade, de acessos e reinação por castas e o pensamento de segregação cada vez maior, começa a assombrar aquela perigosa situação em que, no caso de haver escassez de sangue e ter que se decidir entre 2 pessoas, o heterossexual vai levar primeiro a transfusão porque afinal ele é doador, tem direito a ela. É tudo uma questão de pequenos passos para homem mas de grandes passadas para alarvidade humana.



Por vezes parece que já estamos no limiar de um absurdo ficcionista. Se a coisa ainda é só feita com inquéritos, imagine-se o que se pode fazer quando a tecnologia for mais forte e se puder detectar tudo. Agora é para quem tem sexo supostamente à balda, depois poderá ser para quem como doces exagerados, come presunto todos os dias, enfim quem não for light e asséptico.

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