terça-feira, 18 de agosto de 2009

Eu Abstencionista, me confesso!

Há muito, muito tempo, era eu uma criança, já não me lembro se brincava num jardim, mas o certo é que houve um grupo de senhores que em lugar de ficarem a beber umas bjecas na messe dos oficiais, vestiram as fardas verdes de trabalho, puseram-se em cima de um chaimite e resolveram ir por ali abaixo, até à capital do império, pôr um ponto final no estado ao que velho Estado, dito Novo, tinha chegado.




Como quem não quer a coisa, ou se calhar até queriam e muito, esses senhores deram-me um direito que é poder colocar uma cruz num papel e enfiá-lo numa urna - já agora, não se podia arranjar um nome mais apelativo para o objecto que acolhe tão precioso documento? - e com isto, conferiram-me um autêntico poder de super-homem, onde, mesmo sem capa e collants ridículos, posso agarrar nuns sujeitos que nos prometem isto e aquilo, por vezes com fatos de tão mau gosto quanto os dos super-heróis, e colocá-los num determinado poleiro ou retirá-los de lá. Eles podem achar-se os maiores mas o certo é que sou eu, com o meu papelinho dobrado e enfiado naquela frincha minúscula, que os faço grandes ou simplesmente desaparecer. Chama-se a isto democracia e eu gosto dela.



Assim, quando no passado domingo não fui votar, acabei por não vestir o meu fato de super-votante e, com isto, faltar ao respeito aos tais senhores que me presentearam com esse poder, vulgo direito. Antes de ir buscar o chicote e começar a minha penitência física posso justificar o meu acto em 3, à boa maneira política, grandes motivos:


1 - O objecto em causa era a eleição de um parlamento europeu e com ele definir politicas europeias. Certo? Então porque não o fizeram os senhores que queriam o meu voto? Porque raio não discutiram eles a Europa e resolveram não passar a fronteira das tricas do que aconteceu por cá? Ninguém tratou esta eleição como devia ser, europeia e abrangente, limitaram-se a fazer disto uma sondagem gigante sobre a política do país? Não ficaria mais barato encomendar à Marketest um estudo e depois aviar os deputados proporcionalmente? Ia dar no mesmo. Então se me fizeram de estúpido porque razão tinha eu que me armar em inteligente e ir votar?


2 - Eleger um parlamento Europeu, com funções limitadas e que pouco ou nada define a politica europeia, limitando-se quase a fiscalizar ou fazer barulho sobre a actuação da Comissão e do Conselhos, verdadeiros órgãos executivos e legislativos, é mesmo importante? Se a constituição da Comissão, órgão muito mais importante e que toma decisões que nos afectam a todo, é feita por indicação dos governos, porque é que o parlamento não pode ser feito por indicação proporcional da Assembleia? Poupávamos muito dinheiro e no fim tínhamos o mesmo, ou seja, mais do mesmo.


3 - Mesmo com os argumentos dos 2 pontos anteriores poderia ir votar em branco - tenho uma teoria que os votos em branco deviam eleger cadeiras vazias, mas isso fica para uma próxima - mas não fui. Porquê? Como ainda estou inscrito na residência antiga tinha que me meter no carro e andar uns bons kilómetros. Justifica? Não, se pensarmos no ambiente, e em todas as emissões de CO2 que as eleições aportam - a quantidade de vacas que são abatidas para sustentar o cabedal do Rangel, ou as latas de laca gastas para manter os penteados do Portas e do Vital sempre arranjadinhos, já para não falar das fumaças do comícios do BE - ter ficado em casa levou a que fizesse menos poluição para atmosfera, o que, tendo em conta o tempo que corre e a actuação dos políticos da nossa praça, foi um grande contributo para o bem-estar do planeta azul. Para poluir lá estão eles.

Agora que já fiz a contrição, tragam lá o chicote. Ah, pode vir com aquela senhora de botas enormes e corpete em látex.

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